Entre linhas suburbanas e eixos nacionais, a Estação de Coina é hoje o verdadeiro coração ferroviário da Margem Sul. Nascida já no século XXI, não herdou séculos de história industrial como outras estações portuguesas, mas construiu, em pouco mais de duas décadas, uma centralidade absoluta na mobilidade metropolitana. Coina é o ponto onde se cruza a ferrovia nacional, a rede suburbana, o transporte rodoviário e o automóvel particular, formando uma das mais importantes interfaces de transporte do país.
🧭 1. Introdução Pessoal
Sempre que passo por Coina tenho a sensação de estar num lugar onde a mobilidade se torna visível. Não é uma estação silenciosa nem contemplativa: é viva, intensa, funcional. Aqui chegam carros ainda de madrugada para garantir lugar no parque. Aqui chegam autocarros vindos de concelhos inteiros. Aqui cruzam-se passageiros que vão para Lisboa, Barreiro, Setúbal, Azeitão, Quinta do Conde ou Sesimbra.
Coina é uma estação pensada à escala metropolitana. Não nasceu de uma história centenária, mas construiu, rapidamente, a sua própria centralidade.
Visitei-a diversas vezes por motivos pessoais mas, no passado dia 22 de Novembro de 2025, dediquei-me a fotografá-la, para registo e posterior publicação aqui no site.
Validadores existentes na estação, para aceder às plataformas e embarcar nos comboios da Fertagus.
Escadas rolantes de ligação entre os átrios superior e inferior da estação, vistas do átrio inferior.
Átrio inferior da estação, que contém bilheteiras da Fertagus (físicas e eletrónicas), bem como um café e uma papelaria. Existe também, no exterior, uma churrasqueira e uma loja de arranjos de costura, bem como um outro café, no átrio superior, apenas aberto em hora de ponta.
🕰️ 2. Génese e Contexto Ferroviário
A Estação de Coina está diretamente ligada ao projeto do Eixo Ferroviário Norte-Sul, que permitiu, pela primeira vez, uma ligação ferroviária contínua entre Braga e Faro (passando por Lisboa, pois já o era possível via Linha de Vendas Novas), sem interrupções fluviais.
Até ao início dos anos 2000, o Tejo era ainda uma barreira estrutural. O troço entre a Ponte 25 de Abril e o Pinhal Novo era a última peça em falta para fechar o sistema ferroviário nacional. Coina nasce, exatamente, nesse ponto crítico.
O segmento Fogueteiro–Coina existia desde 1998, mas apenas como acesso às oficinas da Fertagus. Apenas com a conclusão da ligação até Pinhal Novo é que o projeto ganhou sentido pleno:
Permitiu comboios diretos Lisboa–Alentejo–Algarve;
Estendeu os serviços suburbanos da Fertagus até Setúbal;
Criou grandes interfaces ferroviários preparados para a intermodalidade.
Desde o início, Coina foi pensada como “estação-hub”.
As plataformas e as vias de Coina vistas como espaço ferroviário em pleno funcionamento, onde a infraestrutura pesada, a sinalização e a arquitetura moderna se articulam para garantir a operação contínua da rede suburbana.
🚉 3. Inauguração e Primeiros Anos
A estação abriu ao público a 06 de outubro de 2004, marcando a extensão da Fertagus até Setúbal. Foi um momento decisivo para a integração ferroviária da Península de Setúbal na Área Metropolitana de Lisboa.
Os primeiros tempos trouxeram desafios:
Perceção de insegurança;
Acessos rodoviários pouco organizados;
Semáforos desligados durante meses na rotunda da EN10;
Dificuldades de coordenação entre entidades.
Com o tempo, estes problemas foram resolvidos. A estação estabilizou, ganhou maturidade operacional e passou a cumprir plenamente a função para a qual tinha sido desenhada.
Composição da Fertagus estacionada em Coina.
Escadas rolantes de acesso à plataforma, a partir do átrio superior da estação.
Escadas rolantes de ligação entre os átrios superior e inferior da estação, vistas do átrio superior.
Átrio superior da estação.
🏗️ 4. Arquitetura e Identidade
A estação distingue-se pela sua arquitetura contemporânea, da autoria do arquiteto Motta Guedes. É um espaço amplo, luminoso e transparente, onde o vidro domina e a leitura dos movimentos ferroviários é clara.
Para além da componente funcional, integra obras de Charters de Almeida e Nadir Afonso, algo raro na ferrovia portuguesa (com exceção do Metropolitano de Lisboa), onde a arte está verdadeiramente incorporada no espaço de transporte.
Painéis de azulejos integrados na arquitetura da estação, onde a arte de Nadir Afonso faz parte do próprio espaço de circulação ferroviária.
Escultura no átrio principal, afirmando a presença da arte contemporânea no quotidiano de uma estação de transportes.
🚆 5. Infraestrutura e Operação
| Característica | Detalhe |
|---|---|
| Operador de passageiros | Fertagus |
| Infraestrutura | Infraestruturas de Portugal |
| Vias | 4 (I a IV) |
| Comprimento das vias | 270 m a 394 m |
| Plataformas | 251 m, 90 cm de altura |
| Função | Terminal sul do serviço curto da Fertagus |
| Ramal industrial | Início do Ramal da Siderurgia Nacional |
Para além do serviço suburbano, Coina mantém uma função logística importante, ao ligar diretamente a ferrovia ao complexo industrial do Seixal.
Conjunto que ilustra a infraestrutura e a operação ferroviária de Coina, onde plataformas, vias, sinalização e estruturas de acesso revelam a estação como um nó técnico essencial da rede.
🚗 6. Park & Ride e Intermodalidade
Coina é um dos melhores exemplos portugueses de park & ride bem-sucedido.
O projeto original previa:
1000 lugares numa primeira fase;
Expansão até 3000 lugares.
Mesmo sem a total concretização da expansão, a elevada taxa de ocupação diária confirma a validade da visão inicial.
Seguidamente, encontram-se as linhas de autocarro da Carris Metropolitana e dos Transportes Coletivos do Barreiro (TCB), bem como os respetivos destinos, que complementam a oferta do comboio existente nesta estação:
Carris Metropolitana
- 3106 – Fernão Ferro
- 3540 – Zambujal (Sesimbra)
- 3541 – Fernão Ferro (via Pinhal do General)
- 3542 – Praia do Meco
- 3543 – Circular, via Quinta do Conde
- 3544 – Sesimbra
- 3620 – Quinta do Conde
- 3626 – Vila Nogueira de Azeitão
- 3635 – Sesimbra (via Azeitão e Sampaio)
- 4620 – Moita / Paio Pires
- 4621 – Moita / Seixal (Terminal Fluvial)
- 4632 – Quinta do Anjo
TCB
- 6, 9, 10 e 16 – Barreiro / Lavradio
Coina é ainda:
Porta ferroviária do concelho de Sesimbra;
Interface para o BPlanet (Centro Comercial e Retail Park);
Pólo de viagens pendulares e não pendulares.
Área de interface rodoviária de Coina, onde o park & ride e os autocarros garantem a ligação direta à ferrovia.
🚶 7. Acessibilidade Pedonal: a Grande Falha do Nó de Coina
Apesar da sua importância como interface ferroviário, rodoviário e automóvel, Coina revela uma fragilidade evidente quando analisada à escala do peão.
A estação está muito próxima do B Planet Shopping & Retail Park, um dos principais polos comerciais da zona, mas essa proximidade não se traduz numa ligação pedonal segura, contínua e intuitiva. Na prática, é muito mais simples chegar ao B Planet de carro ou autocarro do que a pé, apesar da curta distância.
O paradoxo é claro: de um lado, uma estação com forte vocação intermodal; do outro, um complexo comercial com grande capacidade de atração, 1.750 lugares de estacionamento gratuitos e várias lojas âncora. No entanto, entre estes dois polos falta uma ligação pedonal verdadeiramente qualificada.
Quem tenta fazer este percurso a pé acaba muitas vezes obrigado a usar caminhos informais, zonas de terra batida, bermas desconfortáveis ou espaços pensados quase exclusivamente para o automóvel. No inverno, estes atalhos podem transformar-se em lamaçais; no verão, em zonas secas, pouco cuidadas e pouco convidativas. Mais do que uma questão de conforto, é uma questão de segurança.
A envolvente da estação é dominada por rotundas, acessos rodoviários, parques de estacionamento e ligações à EN10, A33/IC21 e N10-3. Esta configuração facilita a circulação automóvel, mas cria uma barreira física e psicológica para quem se desloca a pé.
O problema também se sente na ligação ao centro histórico de Coina, à zona da EN10 e a pontos próximos como a Fábrica de Tortas Azeitonense. A distância não é grande, mas o desenho urbano torna o percurso desconfortável e inseguro. Assim, espaços que poderiam beneficiar do fluxo diário de passageiros da estação continuam, na prática, desligados dela.
Esta situação revela uma contradição frequente no planeamento de interfaces em Portugal: constrói-se uma estação forte do ponto de vista ferroviário e rodoviário, mas esquece-se a última centena de metros. E, muitas vezes, é essa última centena de metros que determina se uma pessoa escolhe caminhar ou não.
Por isso, pensar Coina como hub metropolitano não pode limitar-se a mais estacionamento ou melhores acessos rodoviários. É necessário criar uma verdadeira rede pedonal envolvente, com passeios contínuos, passadeiras seguras, iluminação, sinalética clara e uma ligação direta entre a estação, o B Planet, a EN10 e o núcleo de Coina.
Se Coina é hoje o coração ferroviário da Margem Sul, a sua envolvente não pode continuar a funcionar como uma ilha rodeada por estradas.
🌍 8. Visão de Futuro: Coina como Nó Central Regional
Na edição 259 da revista Bastão Piloto, da APAC (Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro), encontra-se uma proposta de criação de uma nova linha Coina–Seixal–Barreiro, o que mudaria completamente a hierarquia ferroviária da Margem Sul.
Consiste numa linha suburbana de via dupla entre as estações Barreiro-A e Coina, aproveitando o traçado do antigo Ramal do Seixal e do atual Ramal da Siderurgia Nacional, com uma concordância em Coina, que permita seguir na direção de Lisboa, e duas novas estações, uma no Seixal (junto do atual campus desportivo) e outra junto à Siderurgia Nacional, para servir Paio Pires, Seixeira e Colmeias.
Com cerca de 8,3 km de nova via, permitiria:
Que Barreiro e Seixal atravessassem o Tejo de comboio pela Ponte 25 de Abril;
Integração direta na rede Fertagus;
Transformação de Coina no verdadeiro epicentro ferroviário regional.
De grande interface passaria a nó central absoluto da rede suburbana da Margem Sul.
Esquema geral da nova linha Coina–Seixal–Barreiro, ilustrando a reorganização da hierarquia ferroviária da Margem Sul a partir de Coina como ponto de concordância.
Diagrama funcional do eixo Barreiro-A – Seixal – Paio Pires – Coina, evidenciando a criação de uma ligação direta entre os principais pólos urbanos da região.
Implantação proposta da futura estação no Seixal, mostrando a integração da nova linha no tecido urbano existente.
Localização prevista da futura estação de Paio Pires, pensada para servir Seixeira, Colmeias e a zona industrial envolvente.
🛠️ Proposta: Coina Hub 2030
Antes de se pensar numa futura ligação ferroviária Coina–Seixal–Barreiro, há que pensar na centralidade de Coina não apenas do ponto de vista ferroviário, mas como um verdadeiro projeto urbano de mobilidade integrada.
Uma estratégia Coina Hub 2030 poderia incluir:
Ligação pedonal direta, iluminada e acessível entre a estação e o B Planet, substituindo os atuais percursos informais por um corredor seguro e confortável;
Requalificação dos percursos pedonais até à EN10 e ao centro de Coina, com passeios contínuos, melhor iluminação e atravessamentos mais seguros;
Passadeiras protegidas e atravessamentos seguros nas rotundas, reduzindo a sensação de perigo causada pelo tráfego automóvel intenso;
Sinalética pedonal clara entre estação, autocarros, parques, comércio e núcleo urbano, para que a estação funcione como verdadeiro ponto de orientação no território;
Integração mais clara entre Fertagus, Carris Metropolitana, TCB e estacionamento, melhorando a informação ao passageiro e a articulação entre modos;
Ordenamento do estacionamento informal na envolvente, reduzindo o caos visual e funcional junto à estação;
Criação de um corredor BUS entre Coina e Barreiro, aproveitando, sempre que possível, espaços livres, caminhos existentes e áreas menos consolidadas junto ao Rio Coina, à zona de Palhais e à envolvente do Museu do Fuzileiro, de forma a criar uma alternativa mais rápida e fiável para os autocarros da Carris Metropolitana e dos TCB, sem depender exclusivamente do funil da N10-3;
Criação de uma ciclovia industrial e ribeirinha ao longo do Rio Coina, ligando Coina ao Barreiro por um percurso plano, seguro e segregado do tráfego automóvel, com passagem pela zona de Palhais, Museu do Fuzileiro, Praia de Copacabana e ligação ao Parque Pólis;
Valorização das frentes ribeirinhas, zonas expectantes e antigas áreas industriais ou militares, transformando espaços hoje pouco aproveitados em parte de um corredor verde de mobilidade suave;
Criação de uma zona de chegada mais humana e menos dependente do automóvel, onde caminhar, pedalar, apanhar o comboio ou mudar para o autocarro seja simples, seguro e intuitivo.
Assim, Coina deixaria de ser apenas uma grande estação de transbordo e passaria a afirmar-se como um verdadeiro nó urbano da Margem Sul: ferroviário, rodoviário, comercial, pedonal e ciclável.
🎥 9. Estação em Movimento
Coina em movimento: fluxo de passageiros e dinâmica ferroviária no coração da Margem Sul.
✍️ 10. Conclusão
Coina mostra que uma estação moderna pode ganhar, em pouco tempo, um papel estrutural comparável às grandes estações históricas.
Não nasceu da memória, nasceu da função. E é exatamente isso que lhe dá força.
Hoje é impossível pensar a mobilidade da Margem Sul sem Coina.
No futuro, será impossível pensar a própria rede ferroviária suburbana sem a centralidade de Coina reforçada.
📋 Ficha Técnica
Linha: Sul
Inauguração: 6 de outubro de 2004
Estado: Ativa
Operador Atual: Fertagus
Serviços: Urbano
Ligações Rodoviárias: Carris Metropolitana (AML) e TCB (Transportes Coletivos do Barreiro)
Fotografias: © Pedro Filipe Silva – RailTrackStories