Entre paredes brancas, frisos dourados e um silêncio que guarda o eco dos tempos antigos, a Estação Ferroviária de Leões continua a ligar o passado ao presente. Construída no início do século XX como uma das paragens do Ramal de Mora, resistiu ao fim dos comboios e renasceu integrada na ecopista que hoje percorre o antigo traçado. É um símbolo discreto, mas vivo, da memória ferroviária do concelho de Évora, onde cada detalhe ainda parece contar histórias que o tempo não apagou.
🧭 1. Introdução Pessoal
Algumas antigas estações ferroviárias parecem permanecer num estado de espera silenciosa, como se ainda aguardassem o som distante de um comboio que já não volta. No dia 19 de outubro de 2025, visitei a Estação Ferroviária de Leões, situada na freguesia de Bacelo e Senhora da Saúde, em Évora, e encontrei precisamente esse tipo de silêncio cheio de memória.
O Ramal de Mora já não tem carris, e a antiga via tornou-se uma ecopista. Ainda assim, ao caminhar junto ao edifício senti a presença de tudo o que ali aconteceu durante grande parte do século XX, desde passageiros ocasionais até ao mítico comboio dominical que circulou até ao fim.
Chegada à estação numa tarde calma de outubro, com a luz típica do Alentejo.
🕰️ 2. História e Contexto Ferroviário
A Estação de Leões foi inaugurada em 1907 como paragem do Ramal de Mora. O ramal ligava Évora a Arraiolos e, mais tarde, a Mora, num esforço de aproximar o interior agrícola da rede ferroviária nacional. A sua localização, junto à então Estrada Real 69 respondia às necessidades das quintas da zona e ao fluxo de viajantes que circulavam entre o campo e a cidade.
Letreiro original da estação, em azulejo.
Fachada típica das pequenas estações do sul, com frisos amarelos e paredes caiadas.
Poucos anos depois, a estação tornou-se peça fundamental para o desenvolvimento industrial da zona, sobretudo com a construção da Fábrica dos Leões, inaugurada em 1917. A fábrica dispunha de um ramal próprio que desembocava na estação, permitindo o envio de farinha e massas para Lisboa e para a fronteira. Durante décadas, o apeadeiro foi um ponto de carga e descarga essencial para o distrito de Évora. A antiga fábrica hoje consiste num pólo da Universidade de Évora.
Antiga Fábrica dos Leões, hoje Pólo dos Leões da UÉvora, dedicado ao ensino artístico.
🧱 3. Arquitetura e Património
O edifício da estação segue a estética das pequenas paragens alentejanas. As paredes são brancas, os frisos são amarelos e o nome da estação aparece inscrito num letreiro de azulejos azuis e brancos. As portas de madeira cinzenta, as janelas altas e o corpo rectangular do edifício mantêm grande fidelidade à linguagem ferroviária original.
Apesar do abandono ferroviário, Leões encontra-se surpreendentemente cuidada. Nota-se intervenção local, desde vasos alinhados até pequenos arranjos exteriores, sabendo-se que atualmente o edifício da estação funciona como habitação.
Junto ao edifício principal existe também uma antiga casa ferroviária, onde residia a guarda de passagem de nível, hoje ocupada por um clube de cicloturismo.
Outra vista do edifício da estação e a antiga casa da guarda de passagem de nível, hoje pertencente ao Clube de Cicloturismo Ferragial da Nora.
🚲 4. Da Ferrovia à Ecopista
O que antes era via férrea é hoje um corredor ciclável e pedonal. A Ecopista do Ramal de Mora preserva o alinhamento da antiga linha e permite seguir o traçado completo do ramal, agora com árvores, iluminação moderna e piso contínuo. A plataforma da antiga estação de Leões está ainda totalmente visível, paralela ao percurso, mostrando exatamente onde o comboio parava.
A plataforma da estação paralela ao novo percurso pedonal e ciclável.
Este re-aproveitamento devolveu o traçado às pessoas, criando continuidade entre bairros, campos e caminhos rurais. Onde antes circulavam locomotivas, agora passam bicicletas, caminhantes e corredores.
O traçado ferroviário transformado em ecopista.
🛤️ 5. Memória ferroviária e identidade do lugar
A presença ferroviária não desapareceu por completo. Um dos elementos mais marcantes é o antigo sinal de aviso aos comboios, um marco de pedra coberto de líquenes que ainda ostenta a inscrição para parar, olhar e escutar. Este vestígio funciona quase como escultura involuntária, evocando uma época em que a circulação ferroviária exigia vigilância constante.
O traçado, a plataforma, o edifício e o silêncio do lugar criam um ambiente que mistura história, abandono e cuidado. Leões continua a ser um ponto de referência no território, mesmo sem comboios.
Sinal antigo coberto pelo tempo, memória viva da circulação ferroviária.
Local da antiga passagem de nível do KM 119.408, hoje um atravessamento rodoviário semaforizado.
⚙️ 6. Encerramento, horários e fim do serviço
O Ramal de Mora enfrentou um declínio progressivo ao longo das décadas. A concorrência rodoviária, a baixa densidade populacional e o desinvestimento nas ligações rurais contribuíram para a perda de relevância ferroviária.
No início do século XX, os horários mostravam vários serviços por dia entre Évora e Mora. Em 1913, o ramal contava com circulações matinais e vespertinas, orientadas para mercados semanais e ligações administrativas. Nos anos 70, a circulação já se encontrava bastante reduzida e existiam apenas dois serviços diários, um em cada sentido, refletindo o declínio de procura típico das linhas secundárias alentejanas.
Nos últimos anos de funcionamento, o ramal manteve apenas um serviço de passageiros por semana, ao domingo. Era o chamado “comboio dos domingos”, preservado sobretudo por razões sociais e para manter o acesso de aldeias isoladas à cidade.
Horários do Ramal de Mora em 1913 (esquerda) e 1972 (direita)
A circulação ferroviária cessou a 1 de Janeiro de 1990, juntamente com outros ramais por esse país fora, embora a desclassificação oficial do ramal só tenha ocorrido anos mais tarde. O traçado manteve-se visível e foi convertido na Ecopista do Ramal de Mora durante a década de 2010.
Ao contrário de outras estações e apeadeiros que desapareceram sem deixar rasto, Leões conservou o edifício, a plataforma e parte da ambiência ferroviária, hoje integrada numa nova função pública.
✍️ 7. Conclusão
A Estação de Leões é um testemunho de como a memória ferroviária pode sobreviver mesmo quando os comboios deixam de passar. O edifício permanece, a plataforma permanece e o traçado continua a guiar passos e bicicletas.
Entre as paredes brancas, os frisos amarelos, o céu aberto e o silêncio característico do Alentejo, Leões mantém a sua presença como lugar de passagem, agora num ritmo diferente.
📋 Ficha Técnica
Localização: Bacelo e Senhora da Saúde, Évora
Linha: Ramal de Mora
Inauguração: 21 de abril de 1907
Estado: Encerrada
Encerramento: 1 de janeiro de 1990
Uso Atual: Ecopista do Ramal de Mora
Serviços Históricos: Regional
Ligações Rodoviárias: Rodoviária do Alentejo (Évora e Estremoz) e Trevo (Transportes Urbanos de Évora)
Fotografias: © Pedro Filipe Silva – RailTrackStories